terça-feira, 6 de maio de 2014

GENTE DO BARRO



O mês é exatamente já do ceramista. Começa-se a comemorar. E eu, a propósito da data, escolhi um bate-papo com Elizabeth Lambert Pereira que está no caminho da cerâmica há cinco anos. Elizabeth recebeu-me em sua casa ao lado do marido Paulo Cesar e, também, na companhia dos seus três cães e alguns gatos. Abaixo, confira o resultado da entrevista com a mãe do Carlos Artur e da Janaína, que teve ainda a gentileza de servir uma mousse de pitanga ao final.






¾ (Cães agitados. Latidos. Elizabeth pede a Paulo Cesar que os controle.)

Quem é a Elizabeth?
Sensata. Eu sou sensata e, embora não pareça, eu sempre sou paciente com os outros. Também sei que sou uma pessoa difícil, que tenho dificuldade de comunicação. Na primeira vez, quando me conhecem, percebo que as pessoas têm um impacto. Em todo lugar sempre foi assim e ainda é... Converso e brinco, mas vejo a resistência delas, com certo receio de chegar, e alguns até dizem que têm medo de falar comigo, para só depois começarem a me aceitar no dia-a-dia. Não passo a referência de alguém muito agradável. Ah, sei lá!  Séria? Ah, já sei! Acho que devo pensar que sou esquisita... Não sei por quê. Ainda não me disseram, mas acredito que um dia vou saber.

(Risos.)

Como a cerâmica entrou na sua vida?
A princípio, eu sempre gostei de trabalhos manuais, mas perto de onde moro não tinha muita atividade disponível, até que apareceu uma proposta para mexer com barro. Antes de me decidir, fiquei pensando se tinha jeito para fazer alguma coisa e se ia conseguir... Então fui experimentar e gostei muito. O instrutor botava um pedaço de barro na minha frente e eu ia fazendo... Fiz um sapo e uma coruja. E foi só isso! Fiquei pouco tempo porque cai e tive desligamento dos tendões do tornozelo. Mais tarde, depois de recuperada, comecei em outro ateliê, onde aprendi as técnicas, e que ainda frequento mesmo já tendo organizado meu espaço de trabalho em casa.

Você acha que a sua experiência como massoterapeuta contribui para a atividade de ceramista?
Ah, com certeza. Acredito que sim. O trabalho com as mãos é o que me deixa mais leve, direcionada e com controle. E trabalhar com massoterapia atendeu a essa necessidade até quando me mudei do Rio de Janeiro. Aqui, em Itaboraí, não houve condição para continuar, e eu me voltei para a cerâmica. As duas são quase a mesma coisa, estão ligadas: é modelar. Na massoterapia, eu modelava o corpo das pessoas, massageando e achando os pontos; na cerâmica, faço o que é possível no barro. Mudei de meio: de carne para barro.

(Ouvem-se raios e trovoadas. Cães escondem-se embaixo do sofá.)

De onde vem a inspiração para fazer os objetos?
Isso depende do dia e do objeto. Se não estou focada, e estou desligada, o que dá para perceber, não falto ao trabalho de ateliê porque está marcado e é bom ir, mas a inspiração não vem. Se, ao contrário, estou direcionada, a maioria das vezes eu tenho ideias para fazer objetos voltados ao espiritual e à natureza. Acredito muito no espiritual.  Gosto de máscaras e bichos. Folhas no geral. Estou no caminho das folhas, folhas e folhas.

Qual é o maior desafio nessa atividade?
Trabalhar com torno e porcelana. No torno, é preciso ter prática e estou habituada a modelar sem equipamento. Já a porcelana é muito fina, pouco firme e, por isso, difícil; eu gosto de uma argila mais bruta. Eu ainda acho que porcelana está mais para trabalho em torno e tenho essa combinação como desafio, mas a bruxinha saiu...

(Chove rápido e moderado. É segunda-feira de Carnaval.) ¾


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1 Vaso Flor. Conformação em placa, massa cerâmica tabaco e esmalte mate pérola | 2 Potes. Conformação em torno, massa cerâmica vermelha e esmalte vermelho | 3 Escultura. Conformação em rolos, massa cerâmica tabaco e esmalte transparente |  4 Folha. Conformação em placa, massa cerâmica shiro e esmalte overglazed verde | 5 Bruxa. Conformação em placa, molde de gesso e rolos, porcelana e esmalte overglazed azul